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A importância do registro de dados em fazendas (#1)

A importância do registro de dados em fazendas (#1)

Hoje começamos uma série de artigos para tratar da importância de se coletar dados e controlar informações em fazendas de gado de corte.

É consenso que, na agricultura, os processos são muito mais definidos e controlados. Infelizmente, em grande parte das propriedades rurais do país, a bovinocultura de corte ainda é "levada como Deus quer".

Nos eventos que participamos por aí, seja como ouvintes ou convidados, é impressionante a quantidade de pecuaristas que não sabem se ganham dinheiro com a atividade. Muitos dizem que ganham dinheiro, mas não sabem dizer o quanto. Outros têm medido sua riqueza e geração de lucro pela capacidade de trocar de camionete (mesmo que por financiamento) todo ano. E tem aqueles que sabem que a situação está preta, mas preferem não fazer contas para não largar os bets de vez! E vai levando...

A pergunta é: por que enfrentamos essa realidade hoje na pecuária de corte?

Pensamento bovino: hmmmmm!

Na minha humilde opinião, a resposta disso está muito antes do simples fato de anotar dados e coletar informações. Aspectos culturais, de mão de obra, de logística, de comunicação e de planejamento são alguns dos fatores que nos trazem a esse cenário.

Para começo de conversa, o pecuarista precisa entender que, se a receita dele vem do quanto o seu gado pesa na fazenda (peso vivo) e/ou no frigorífico (peso de carcaça), o mínimo que ele deve fazer é pesar o gado frequentemente, pelo menos os animais que serão destinados ao abate.  A intenção aqui não é discutir as questões técnicas relacionadas à pesagem dos animais, mas sim deixar claro que, de outra forma, simplesmente não há como fazer uma gestão adequada do negócio.

No mês passado, ministrei um treinamento de 2 dias sobre gestão rural para pequenos, medios e grandes pecuaristas. Dos cerca de 40 produtores presentes, apenas seis tinham balança na propriedade. Isto quer dizer que 85% não pesa o gado uma vez sequer durante a permanência dele na fazenda. É realmente alarmante!

Peter Drucker, o pai da administração moderna, afirma que só se pode melhorar aquilo que se mede. Se você não "mede" o ganho de peso do rebanho, nunca conseguirá identificar os gargalos da sua produção. 

Em maio de 2016 eu publiquei um artigo que discutia a "profissionalização" da atividade rural. Nele, falei da necessidade de se adotar novas tecnologias como parceiras na condução da atividade, buscando transformar sua propriedade rural em empresa rural, frase que já é praticamente um clichê, mas ainda sem efeito prático.

Lembrando que tecnologia não se trata apenas de comprar um novo software ou um novo equipamento. Qualquer processo que passe a ser feito de forma mais eficiente pode ser considerado como uma nova tecnologia.

Ferramentas e processos que cumprem este papel existem aos montes por aí. Mas o que falta é a capacidade de nós, técnicos, mostrarmos ao produtor rural com dados, exemplos e informações reais, palpáveis e mensuráveis, os resultados que são possíveis de se obter ao mudar a maneira de tratar a atividade, adotando novos conceitos ou, simplesmente, mudando a forma de fazer a mesma coisa.

Nas consultorias em fazendas de gado de corte que fazemos Brasil afora, vemos que, na maioria das vezes, o problema...

...é operacional e de mão de obra, quando:

1) O produtor rural é o "faz tudo" na propriedade, ou seja, além de dono, ele é também o funcionário, o comercial, o financeiro, etc. Nestes casos, a falta de mão de obra é um entrave para que o produtor aceite adotar uma nova tecnologia, que na maioria dos casos demanda um certo trabalho inicial para se implantar. A ideia da sobrecarga de trabalho sem a percepção de que o objetivo a medio e longo prazo é, justamente, reduzi-la, afasta o produtor do interesse por novas tecnologias. 

2) Não se tem uma orientação adequada sobre como executar os novos processos dentro da fazenda. Diz-se que é preciso anotar isso, aquilo e aquilo outro, mas não se ensina como fazer, levando em conta as particularidades de cada propriedade. O resultado é a anotação de dados e informações incorretas e sem qualidade, que não poderão ser aproveitados para gerar nada.

3) Os funcionários não têm o que chamamos de "cabeça de dono" e interpretam qualquer tentativa de melhoria nos processos somente como aumento da carga de trabalho. Sem a equipe trabalhando junta é muito difícil que alguma mudança para melhor seja permanente.  

 

...é de comunicação logística, quando:

4) Não se consegue fazer com a informação coletada no campo chegue ao escritório ou ao responsável em tempo e condições hábeis de ser armazenada, tratada e interpretada para a tomada de decisão.

5) Não se consegue sequer fazer com que a informação saia do caderno de campo do funcionário.  

 

...é de planejamento, quando:

 6) O proprietário já fez uma ou mais tentativas frustadas de adoção de tecnologia, sobretudo pela escolha equivocada da ferramenta, método ou processo a ser adotado. Nestes casos, o que vemos é uma aversão total a qualquer mudança por parte do produtor.

7) Os dados são coletados na fazenda, mas o produtor não sabe como transformar esses dados em informações úteis para a tomada de decisão.

 

...é cultural, quando:

 8) As novas gerações tentam, sem sucesso, convencer o patriarca a adotar novas tecnologias, e são barrados pelo argumento do "sempre fiz assim e já passei da idade de querer fazer algo diferente".

9) O pecuarista, mesmo sabendo que a atividade pecuária é de longo prazo, e que demanda tempo e investimento, quer que os resultados apareçam do dia para a noite.

10) Se tem a percepção de que o "gado aguenta muito mais desaforo" e que, por conta disto, é possível alocar esforços e se preocupar apenas com a agricultura, que é muito mais suscetível. 

 

Esses são apenas alguns dos aspectos que explicam a dificuldade de se implantar melhorias que tragam (mais) lucro ao pecuarista.

A ideia aqui é tentar mostrar minha visão sobre a necessidade de se planejar, orientar e capacitar a mão de obra e, principalmente, provar ao pecuarista que aquela mudança trará maior rentabilidade e lucratividade ao seu negócio, antes de tentar fazê-lo engolir um novo produto ou um novo processo.

Se essas melhorias vierem acompanhadas de uma menor carga de trabalho, então teremos aí o melhor dos mundos. Ter mais tempo para planejar e tomar decisões é o que todos nós almejamos no mundo dos negócios.

Mas é preciso começar do básico, do trivial, do individual. Cada produtor precisa vislumbrar primeiro os retornos que isso lhe trará lá na frente, para depois pensarmos na coletividade. Adam Smith, pai da economia (que não é parente do tio da aveia Quaker), em uma de suas mais famosas frases, afirma que cada um trabalhando em busca de seus próprios interesses leva ao bem-estar geral da sociedade.

 

Até a próxima!

Gustavo Pedroso

 

"Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da consideração que ele têm pelos próprios interesses. Apelamos não à humanidade, mas ao amor-próprio, e nunca falamos de nossas necessidades, mas das vantagens que eles podem obter." Adam Smith

 

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Consultor de Agronegócios | Sócio-administrador e Consultor Técnico na Reditus Consultoria | Economista | Zootecnista | 31 | Curitiba-PR

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