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A vulgarização do termo ‘startup’

A vulgarização do termo ‘startup’

Se existe uma coisa que me chama a atenção — e me preocupa — é a vulgarização de alguns termos. Por exemplo o ‘food truck’, que fora do Brasil é sinônimo de comida barata e de rua, aqui sofreu um processo de ‘gourmetização’ e agrupamento em espaços específicos. As barbearias — que sempre ofereceram serviços a preços acessíveis — viraram ‘barber shops’, locais que além de tosquiar nossas madeixas nos ofertam uma série de produtos e entretenimento.

Agora, apareceu aqui em Santa Catarina uma empresa que se autodenomina o primeiro clube de futebol ‘startup’ do Brasil. O time vem obtendo relativo sucesso dentro de campo e vai disputar a elite estadual na próxima temporada. Mas, clubismos a parte, precisamos refletir sobre o assunto: é possível um time de futebol ser uma ‘startup’? Para esta análise, inicialmente vamos nos ater aos conceitos.

Em sua página na internet, o clube informa que foi constituída uma Sociedade de Propósito Específico (SPE) para modernizar e estruturar todos os setores, investindo na qualificação. Esta empresa terá uma duração estabelecida de vinte anos, prorrogáveis por outros vinte, tendo como meta se tornar exemplo nacional de governança e gestão esportiva, almejando estar até 2025 entre os quarenta maiores clubes do país. Também afirma que a empresa foi incubada dentro de uma Universidade e graças a isso é o primeiro clube ‘startup’ do Brasil.

Mas afinal, o que é uma ‘startup’? Para obter essa resposta, vamos recorrer ao norte-americano Eric Ries, um dos especialistas mais respeitados sobre o assunto. Reis define ‘startup’ como “uma instituição humana projetada para criar novos produtos e serviços sob condições de extrema incerteza”. Uma evolução deste conceito, atribuída a Yuri Gitahty, define uma ‘startup’ como “um grupo de pessoas à procura de um modelo de negócios repetível e escalável, trabalhando em condições de extrema incerteza”. Existe também um conceito em desuso — e que ainda gera muita confusão — que versa ser uma ‘startup’ qualquer pequena empresa, desde que se encontre em seu período inicial.

Pois bem, agora vamos destrinchar o conceito de Reis, para facilitar o entendimento. Um clube de futebol é uma instituição humana? Sim, com certeza. Um clube de futebol é projetado para criar novos produtos ou serviços? A princípio não. É projetado para colocar sua equipe em campo e jogar futebol. Porém pode sim criar produtos ou serviços inovadores e é aqui que reside o erro de conceito neste caso em específico.

Um clube de futebol atua sobre condições de extrema incerteza? Este é um ponto bastante controverso. A princípio não, pois atua em cima de um cenário pré-estabelecido, um calendário que deve seguir e ao qual tem acesso com antecedência. Em contrapartida, seu sucesso depende basicamente de um bom rendimento dos atletas dentro de campo.

Agora voltamos ao ponto em que ocorre o erro de conceito identificado: “criar novos produtos e serviços”. Como inovar dentro do futebol? O jogo é secular, assim como suas regras. Inovar em técnicas e táticas é possível, mas isso não faz parte do ambiente de negócios e não atende aos preceitos básicos de uma ‘startup’: estar em um cenário de incertezas (já vimos que este ponto é controverso), ter um modelo de negócios que gera valor (trazer efetivamente o retorno financeiro para a empresa e seus investidores), ser repetível (possuir um modelo de negócio que consiga ser aplicado em qualquer clube da face da Terra) e ser escalável (crescer cada vez mais, sem que isso influencie no modelo de negócios).

Reforçando a parte conceitual, reza a lenda que as ‘startups’ são empresas que criam modelos de negócio altamente escaláveis, a baixo custo e a partir de ideias inovadoras. Geralmente são empresas muito novas, em fase de desenvolvimento e pesquisa de mercado. Em sua maioria têm base tecnológica, possuindo o espírito empreendedor em seu DNA, além da constante busca por um modelo de negócio inovador.

Posto isso, surge novamente a pergunta: existe um modelo de negócio inovador a ser aplicado no futebol? Algo que possa ser escalável e replicado em outras equipes mundo afora? E o mais importante: é uma inovação que trará retorno financeiro (‘royalties’) para seus criadores e investidores? Complicado, não é mesmo?!

O fato de uma empresa ter sido incubada não a torna uma ‘startup’. E esse é o primeiro grande erro de muita gente ao se conceituar como tal. Por outro lado, uma empresa — em qualquer segmento de mercado — pode ter um produto ou projeto dentro de sua estrutura que seja ‘startup’. Para isso, basta atender aos preceitos já citados, como o San Francisco Deltas está se propondo nos Estados Unidos. Lá as atenções dos projetos de inovação estão focados em três dimensões do negócio: ingressos, realidade virtual e alimentação no estádio.

Mas nem tudo são críticas negativas, pois trazer conceitos modernos de gestão para equipes esportivas é interessante e saudável. Um sopro de vida em um ambiente que cheira a mofo. Porém, um clube de futebol pode até ter sido concebido em um ambiente de tecnologia, como uma Universidade ou em San Francisco, mas jamais será uma ‘startup’.

Henrique Porto é administrador, jornalista, escritor e fã incondicional de esportes. Marido da Iriane, pai da Julia e da Beatriz. Jundiaiense de nascimento e jaraguaense por opção. Atua como analista técnico do SEBRAE/SC.

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Analista Técnico - SEBRAE/SC

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