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Boas ideias podem surgir do caos?

Boas ideias podem surgir do caos?

O sucesso só pode ser proveniente de profundas reflexões, alinhadas com as estratégias da empresa ou será que boas ideias podem surgir justamente do caos, do inesperado, e serem um risco da mesma forma que o pensamento organizado?

A esta pergunta não cabe uma resposta simples como sim ou não, sem que haja um extenso complemento justificando cada uma das opções. Se sim, o sucesso depende de profundas reflexões, alinhadas as estratégias da empresa, embasar-se-ia com afirmações tais como as de Clayton M. Christensen que disse no Livro Como Avaliar Sua Vida?: “Se as decisões tomadas sobre onde investir o seu sangue, suor e lágrimas não estiverem em consonância com a pessoa que aspira ser, você nunca se tornará essa pessoa” ou ainda “foco é dizer não”, frase célebre de Steve Jobs.

No livro A Bíblia da Inovação, de Fernando Trías de Bes e Philip Kotler, os autores defendem que “a inovação deve ser entendida como o desenvolvimento de uma cultura de inovação dentro da empresa, que é aquilo que permite produzir e levar ao mercado um fluxo constante de inovações menores e incrementais”.

Um exemplo de grande organização que modificou drasticamente seu processo de inovação foi a General Eletric. “Nos últimos 16 anos, a GE passou pela mais importante reestruturação de sua história. Éramos um conglomerado clássico. Agora somos chamados de startup de 125 anos — somos uma empresa industrial digital que está definindo o futuro da internet das coisas”, disse Jeffrey R. Immelt, CEO da GE. Em entrevista a Harvard Business Review, Immelt disse que A GE é famosa por criar, e religiosamente introduzir, processos para administrar praticamente tudo o que produz. Entretanto, nenhuma transformação é possível sem reformular a cultura e a forma como as coisas são feitas. “Quando o ritmo do negócio é tão mais rápido, qualquer coisa que seja anual não faz sentido. Por isso, agora renovamos vários de nossos produtos continuamente e a forma como conversamos com os outros sobre carreira, estratégia e resultados.”

Na GE a alta direção estava envolvida diretamente no processo de inovação. Ademais, houve influência de ícones atuais como Marc Andreessen, cofundador da Netscape Communications Corporation, e Eric Ries, autor do livro the lean start-up.

A sinopse do livro pode ser resumida como: “Eric Ries criou uma abordagem revolucionária de administração que está transformando a maneira pela qual os novos produtos são criados, desenvolvidos e lançados. A Startup Enxuta ensina empreendedores, administradores e líderes empresariais a serem mais bem-sucedidos na condução de seus negócios sem, contudo, desperdiçar tempo e recursos. Na esteira da turbulência da economia mundial, a inovação é essencial para estimular o crescimento econômico, e o processo criado em 'A Startup Enxuta' foi desenvolvida para que se possa evitar dinâmicas de atualidade. Eric descreve o plano para que cada um possa executar os princípios fundamentais da startup enxuta em qualquer projeto.” Ou seja, apesar da celeridade, existe um processo.

Mas será que boas ideias podem surgir justamente do caos, do inesperado, e serem um risco da mesma forma que o pensamento organizado? Acredito que sim! As startups do Vale do Silício estão aí para provar o que é possível criar a partir de uma simples garagem: Apple, Microsoft, HP, Airbnb entre tantas outras.

No livro O Poder da Intuição: o inconsciente dita as melhores decisões, de Gerd Gigerenzer, o autor dá exemplos de como o poder da ignorância no sentido de acelerar as mudanças sociais é uma arma capaz de revolucionar a ordem social. É o que se presume dos fundadores das startups do Vale do Silício, a maioria da década de 1970, que inclusive abandonaram a faculdade para empreender, provavelmente porque o processo, à época, os tornavam lentos. Os atos intuitivos desses heróis tinham como base o conhecimento que faltava, mas o pressentimento “Eu consigo fazer isso!”.

No mesmo livro, o autor cita o exemplo de Cristóvão Colombo que teve dificuldade para financiar seu sonho de encontrar uma rota ocidental para as Índias. Seus contemporâneos acreditavam que ele tinha errado no cálculo da distância, e estavam certos. Embora Colombo soubesse que a Terra era redonda, subestimou por larga margem o raio de sua circunferência. Assim como “Não sabendo que era impossível, foi lá e fez”, frase de Jean Cocteau, Colombo acabou conseguindo o dinheiro, zarpou e encontrou outra coisa: a América. Caso soubesse que as Índias estavam tão longe, podia não ter sequer saído de casa.

O mais interessante foi que o próprio Colombo não viu em sua descoberta um golpe de sorte ao acaso; insistiu até a morte que tinha chegado às Índias. Como disse John Lennon: “A ignorância é uma espécie de bênção. Se você não sabe, não existe dor”.

Contudo, boas ideias que surgem do caos, do inesperado ou da ignorância só têm relevância em inovações revolucionárias ou radicais, como a Apple, com o iPhone ou o sucesso fenomenal do Google, na Internet. Isso gera buzz, isto é, se espalha de maneira diferente através dos comunicadores e ofuscam todo o resto, contagiando e incentivando as pessoas porque surgiu na hora certa, para as pessoas certas no lugar certo.

O caos, o inesperado e/ou a ignorância seriam de pouca utilizada na resolução de problemas rotineiros do dia-a-dia, que exigem eficácia e conhecimento.

Steve Jobs foi expulso da empresa que criou em 1985, justamente porque não se submeteu às profundas reflexões, alinhadas as estratégias da empresa. Em 1997 retornou à empresa e, por meio de inovações revolucionárias e radicais transformou a companhia na mais valiosa do mundo. Após a sua morte, nenhuma outra novidade impactou tanto o setor de tecnologia quanto o lançamento do iPod, iPad ou iPhone. Há apenas um fluxo constante de inovações menores e incrementais, algumas até trágicas, como a denúncia de que estaria diminuindo o desempenho de aparelhos com dois anos ou mais para “esconder” um problema na bateria.

Isto posto, acredito que há espaço para os dois cenários, de acordo com a atividade da companhia e também com a sua cultura. Mas, convém lembrar que que na América Latina, sobretudo no Brasil, a tolerância ao fracasso é mínima, o que desestimula a cultura de inovação. 

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ISMAEL PEREIRA DOS SANTOS
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Empresário, empreendedor, idealizador do www.bookshare.com.br e sócio da Intelecto. Amante da leitura, apoia e estimula o consumo colaborativo.

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