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Informação: o combustível para acelerar a sua Startup

No artigo Como tomar melhores decisões utilizando pesquisas de mercado vimos que ser empresário é ter de tomar decisões a todo o momento. Porém, basear-se em informações para amparar as decisões pode representar um diferencial competitivo, desde que bem feito, assim neste artigo mostramos como utilizar de pesquisa para obtenção de informação de qualidade em uma Startup.

Com esse propósito, vamos acompanhar a jornada de empreendedorismo de Marcos, e como ele busca e utiliza a informação nas etapas de projeto, operação e tração de sua Startup.

Marcos está no último ano do curso de Ciências da Computação, de uma faculdade pública. Durante o curso viu uma grande dificuldade em conciliar todas as atividades extracurriculares, e não só isso como também saber da existência das atividades. Além do curso, a faculdade permite inúmeras atividades, como: teatro, monitorias, programa de iniciação científica e participação em organizações acadêmicas, entre outras.

Dado o número de possibilidades, ele percebeu que o aluno, principalmente o calouro, acaba por não saber sobre a existência ou os detalhes das atividades extracurriculares, ou ainda se recebe informações não é capaz de conhecer os detalhes de cada uma, não explorando tudo que a faculdade tem a oferecer. Assim, Marcos tem a ideia, se existem alunos que estão na faculdade sem saber o potencial da sua experiência acadêmica e o conhecimento destas possibilidades pela vivência, como informar este público sobre todas as possibilidades? Simples, um aplicativo, por quê? Pois esta é a geração que vive no mobile, segundo o AdReaction (2016), estudo realizado desde 2001 que fornece insights sobre a percepção que os consumidores têm em relação à publicidade, a Geração Z (nascidos a partir de 1995) passa em média 6,1 horas por dia no smartphone.

Fácil assim abrir um negócio, né? Não, a princípio parece fácil, mas diversos questionamentos surgem, por exemplo, como definir seu público-alvo? O público de Marcos é composto de universitários, mas entre os cursos as atividades são as mesmas? E entre as faculdades? Para que ele responda é necessária informação, a questão é como obter.

Assim, cai-se numa situação muito comum entre fazer uma pesquisa ou já investir o tempo e recursos na produção de um MVP (Mínimo Produto Viável) para obtenção de informação. Mas como escolher? Talvez o MVP, ele parece ser o mais rápido e prático, mas também possui desvantagens, vamos ver o que Marcos pensou:

Pesquisa: por meio de seu público-alvo é possível mensurar a aceitação e opinião quanto ao futuro aplicativo/produto, sem a necessidade de investimento a longo prazo no desenvolvimento do produto e sim numa ação pontual que pode garantir não só informação sobre a ideia, como também insights para novas oportunidades.

MVP: no caso de uma ideia já bem desenvolvida, e que possua indicativos de ser uma solução para um problema real é uma ótima escolha, pois garante informações quanto à materialização da ideia, sendo assim mais rápida que a pesquisa em termos de desenvolvimento do negócio, porém necessita o investimento de seu tempo e recursos na produção.

Após avaliação, Marcos escolhe a opção de pesquisa, por achar mais prudente, pois como está em seu último ano de faculdade não possui tempo suficiente para investir no desenvolvimento de uma versão inicial do aplicativo.

Decisão tomada, como proceder? Como vimos no artigo Como tomar melhores decisões utilizando pesquisas de mercado, podemos realizar a pesquisa em 5 etapas. Acompanharemos então como Marcos lidará com estas escolhas ao fazer pesquisas em diferentes fases de sua Startup.

1. Planejamento da pesquisa

Por vezes o planejamento não recebe a devida atenção, mas é essencial para se alcançar o sucesso da pesquisa. É na fase do planejamento que se define, define-se o público-alvo, os objetivos da pesquisa e formula-se as hipóteses, tipo de pesquisa, método de coleta de dados e plano amostral.

Público-alvo

O público-alvo é composto por pessoas físicas ou jurídicas que interessam ao objetivo de sua pesquisa, assim é fundamental definir bem quem são estas para garantir que suas respostas na pesquisa serão fidedignas para o objetivo proposto.

Para definir seu público-alvo, é importante defini-lo bem, no caso de Marcos em que está preocupado em pessoas, características socioeconômicas, hábitos e localização são questões importantes para se questionar.

Objetivos

Os objetivos são as questões que se deseja investigar, desde os principais (objetivos primários) quanto os complementares (objetivos secundários). Também se estabelece hipóteses, ou seja, suposições sobre o negócio a serem testadas com os resultados obtidos dos dados.

No caso de Marcos, ele define o que deseja extrair de informação de seu público-alvo, dado a seguinte segmentação:

                  Nível: Graduação ou Pós (especialização, mestrado, doutorado ou pós-doutorado)

                  Curso: divide-se em 3 áreas: humanas, exatas e biológicas;

                  Ano: Iniciante (1º ano), Intermediário (2º ou 3º ano) e Avançado (4º ano ou maior).

Os questionamentos devem ser diferentes para cada umas destas, em que a segmentação ano só é válida para o nível de graduação.

Tipo de pesquisa

Definidos público-alvo e objetivos, como extrair as informações? Possíveis formas são:

                  Pesquisa de campo: consiste na observação, coleta e análise de dados obtidos in loco, através do contato direto com o público-alvo, ou seja, um entrevistador instruído obtém os dados a partir da aplicação de um questionário; 

                  Web scraping:  processo que consiste na automatização do processo de extração de dados da Internet, de forma que se tornem estruturados e preparados para análise. Devido a diversidade dos dados e suas fontes, muitas linguagens são utilizadas para programação deste processo, algumas das mais comuns são: Python, R e Ruby; 

                  Entrevista em profundidade: tipo de pesquisa que permite a obtenção de informações mais subjetivas e complexas, em que um entrevistador fará uma entrevista incentivando o diálogo com o participante visando a extração de opinião sob diferentes pontos de vistas.

Dica: Um bom guia para iniciantes em web scraping com a linguagem Python é dado pelo site Analytics Vidhya

Cada uma possui vantagens e desvantagens, sabendo destas 3 possibilidades Marcos faz uma comparação entre elas a fim de identificar a mais interessante e viável para seu objetivo e público-alvo.

A seguir são apresentados os principais meios de aplicação, assim como algumas vantagens e desvantagens de cada um.


Tipo de pesquisa: pesquisa de campo.

Preço: Médio, Necessitará, no mínimo, de materiais de aplicação;

Tempo: Alto, Depende do número de pessoas aplicando e do tamanho amostral, ainda sim é um processo que pode durar dias ou até semanas. Em empresas maiores pode durar meses;

Precisão: Médio, apesar do controle do instrumento de coleta, os questionários para aplicação não podem ser demorados, limitando o grau de profundidade da informação obtida.


Tipo de pesquisa: web scraping.

Preço: Baixo, possuindo o conhecimento técnico a mesma é gratuita;

Tempo: Baixo, dado o conhecimento requer só extração e estruturação dos dados da Internet, costuma durar dias;

Precisão: Médio, a aplicação em si pode ser feita em horas, porém muito tempo é gasto na logística, podendo durar no total semanas.


Tipo de pesquisa: entrevista em profundidade.

Preço: Alto, necessitará, no mínimo, de espaço, materiais e voluntário;

Tempo: Médio, a aplicação em si pode ser feita em horas, porém muito tempo é gasto na logística, pode durar semanas;

Precisão: Alto, como consiste no aprofundamento das questões este método permite a extração de informações mais refinadas.

Analisando as vantagens e desvantagens de cada método Marcos já descarta o web scraping, pois ele quer saber de informações subjetivas e específicas e não vê como obter de um fórum, site ou mídia social, além disso, precisão é importante para ele. Assim, entre questionário e entrevista em profundidade, ele escolhe a segunda opção, que permite justamente a compreensão das razões por trás de cada ponto de vista, mesmo requerendo mais esforço, tempo e recursos.

Assim, Marcos precisa de uma última coisa, estudar mais sobre entrevista em profundidade. Ele entende que é um meio que permite a obtenção das razões por trás de um ponto de vista ou comportamento, mas como conseguir isto? Para realização de uma entrevista eficaz é necessário:

                  Empatia e reciprocidade;

                  Saber ouvir;

                  Criar diálogo e não ficar como no questionário entre perguntas e respostas;

                  Entrevistador instruído no assunto e no público-alvo.

Deve se ter em mente que diferente da simples aplicação de questionário, aqui o foca é na profundidade da informação e não na quantidade.

Plano amostral

Consiste no estudo sobre amostra, que nada mais é que uma parte da população de interesse a ser estudada na pesquisa. Para tal define-se: população, método de seleção e tamanho amostral.

Vejamos como Marcos define estas 3 etapas, primeiro, quem é a população? Bom, ele definiu seu público-alvo no passo anterior, sendo composto de universitários que utilizam smartphones, ou seja, ele sabe as características que compõe a população, mas e quanto ao local? Entre as faculdades pode haver muitas diferenças, porém tanto em termos de pesquisa quanto de lançamento do aplicativo, ele possui recursos limitados. Desta forma, Marcos decide por limitar-se a sua própria faculdade, não só pelo conhecimento da mesma, como também pela viabilidade da pesquisa.

Definida a população, deve-se então escolher qual tipo de amostra utilizar, existindo dois tipos:

                  Aleatória: amostra que a partir de um sorteio aleatório e condições estatísticas, garante que a mesma seja representativa da população, de forma que esta é determinada sem viés ou tendências;

                  Determinística: amostra intencional, ou seja, devido à dificuldade/impossibilidade da amostra aleatória utiliza-se da escolha arbitrária para aplicação da pesquisa.

A primeira é sempre desejável, mas muitas vezes inviável, pois requer um registro de toda população para sorteio. Sabendo disso Marcos escolhe a amostra aleatória, pois esta informação apesar de difícil é possível obter em seu caso.

O próximo passo é o cálculo amostral para obtenção do tamanho da amostra. Para tal, ele necessita determinar um método para seleção da amostra. Esta é uma etapa muito importante, pois pode garantir a representatividade desta amostra para a população definida, porém como determinar?

Simples, ele busca no google como fazer, e acaba chegando em calculadoras de tamanho amostrais, mas percebe que os números ali calculados são inviáveis, como também percebe que estes aplicativos só revelam o tamanho e não a seleção e forma de aplicação.

Assim, percebe que para garantir a confiança de seus dados é necessário a busca de ajuda externa, de forma que consulta um amigo estatístico que faz parte de uma empresa júnior.

A empresa júnior auxilia no plano amostral, em que ele utiliza de um método de seleção chamado amostragem aleatória sistemática, que necessita de uma numeração sequencial correspondente a população, no caso o registro acadêmico. Já para o cálculo do tamanho utiliza de teoria de probabilidade e estatística para obtenção, em que obtém que 36 alunos seriam o suficiente para a amostra.

Dica: Para mais informações sobre amostragem consulte o livro Sampling of Populations: Methods and Applications, dos autores Paul S. Levy e Stanley Lemeshow.

Agora Marcos sabe com quantos, com quem e de que forma fazer sua entrevista.

Devido a possibilidade de ausência, uma amostra com membros suplentes também é feita, de forma que outra pessoa a substitua.

2. Instrumento de coleta

Na segunda etapa da pesquisa define-se o instrumento de coleta, ou seja, dado o tipo de pesquisa o material que auxiliará na coleta de dados (questionário, formulário ou roteiro) como também um material para descrever a logística do processo de coleta.

No caso de Marcos que escolheu a entrevista em profundidade, necessita-se de um roteiro para o entrevistador aplicar e em termos de logística, necessita realizar o agendamento das entrevistas.

Assim, dados os objetivos definidos ele construirá um roteiro que permita entrevistar e extrair as informações desejadas, de forma que perguntas gerais serão escritas, sendo simples, objetivas, que minimizem ambiguidades e evitem frases confusas, contraditórias ou até muito técnicas. Além disso, estabelece-se também cenários que a entrevista pode tomar para que o entrevistador possa incentivar o diálogo e extrair o máximo da opinião.

Também se deve definir o número de entrevistadores e com base no tamanho amostral e tempo estimado de entrevista definir o número de dias necessários para realização das entrevistas.

3. Aplicação da pesquisa

Para a coleta de dados é necessário o recrutamento do público-alvo, que pode ser de forma voluntária ou incentivada com algum tipo de bonificação. Porém, é importante tomar cuidado com a segunda alternativa para que o entrevistado não participe somente pela recompensa e entregue respostas de qualquer forma.

Após o recrutamento e agendadas as entrevistas, o(s) entrevistador(es) realizarão as entrevistas, que podem ser gravadas ou filmadas, desde que consentido pelo voluntário. Recomenda-se neste caso a escrita de um termo para consentimento, garantindo a confidencialidade dos dados.

Pode-se dividir o processo de entrevista em alguns passos:

                  1º - Rapport: criação de uma ligação com o entrevistado, de forma a criar um ambiente agradável;

                  2º - Introdução: apresentação dos detalhes e propósito da pesquisa, de forma a tirar dúvidas como também gerar um sentimento de importância ao entrevistado. A assinatura do termo de confidencialidade pode ser feita nesta etapa;

                  3º - Entrevista: passo que em os tópicos pré-definidos sobre o produto/serviço são permeados pelo entrevistador, e a entrevista é conduzida e a coleta dos dados é feita;

                  4º - Fechamento: terminados os temas, o entrevistador finaliza a entrevista agradecendo o tempo e a participação do entrevistado.

4. Análise dos dados

Após a aplicação do instrumento de coleta, é necessário transformar os dados em informação, e temos aqui dados do tipo qualitativo, ou seja, não numérico/mensurável. Assim, apesar de técnicas mais complexas como mineração de texto e análise de sentimentos (que serão apresentadas neste artigo) que permitem analisar estes dados de forma “quantitativa”, estas requerem um maior conhecimento técnico, algo que o próprio Marcos não possui, por hora.

Devido à falta de conhecimento, Marcos faz uma leitura e análise intensivas de todas as respostas obtidas, vendo que:

O conhecimento sobre as atividades extracurriculares cresce à medida que o aluno passa de ano, ao contrário da importância que só decresce, pois outras preocupações surgem, como: estágio e trabalho de conclusão de curso;

Além disso, apesar de concordarem que há falta de informação detalhada sobre as atividades, não consideram estas tão importantes para se ter um aplicativo, quem dirá pagar por um;

Marcos notou que entre os cursos não há grande diferença para com as atividades extracurriculares;

Por fim, os alunos de pós-graduação comentam que as atividades são obrigatórias, mas acabam sendo cumpridas em termos de participação em eventos e palestras, apresentações de seminários e publicação de artigos, havendo dificuldade em acessar e comparar as informações relativas às atividades.

5. Tomada de decisão

Para tomada de decisão, deve-se utilizar do seu conhecimento, somado as informações obtidas via análise.

No caso de Marcos, ele não desanima com os indícios de que seu aplicativo não vingaria, pois nas entrevistas percebe outra oportunidade. Como os alunos de pós-graduação comentam da rigidez e obrigatoriedade de suas atividades, vê que para eles há, de fato, uma necessidade. E não só isso, instigá-los nas entrevistas, descobre que há uma enorme dificuldade em reunir informações sobre eventos, como também escolher uma revista para publicação de artigo, pois há diversos fatores envolvidos, como: preço, qualidade, regras, datas, entre outras.

Assim, mesmo na presença de uma adversidade, vê que há um público com um problema e ele pode prover a solução, acompanhe no próximo post da série como ele enfrentará esse novo desafio.

Colaboraram com este artigo: Larissa Bueno e Vinícius Basseto Félix.

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José Leonardo Quintino
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Uma pessoa não conformada com o "impossível de se fazer". Prefiro dizer que ainda não descobri a maneira adequada. Evoluir é o que busco, em todas as esferas que constituem uma pessoa.

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