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Necessidade x oportunidade: o que muda no empreendedorismo com a crise

Necessidade x oportunidade: o que muda no empreendedorismo com a crise

O Brasil tem vivenciado desde 2014 uma fase de recessão econômica das mais acentuadas vividas nas últimas décadas no país. A taxa de desemprego em 2017, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi a maior desde 2012, quando foram iniciados os registros, ultrapassando 14 milhões de pessoas sem registro formal de emprego. Em comparativo a 2014, o país viu o número de desempregados mais que duplicar.

As demissões com certeza refletem momentos críticos vivenciados por muitas empresas que, ao perderem seu poder de investimento, se viram obrigadas a reduzir custos, o que incluiu a dispensa de colaboradores. Mas será que a crise teve influência também no empreendedorismo? E se teve, foi positivo ou negativo?

Necessidade x oportunidade

Quando se fala em empreendedores, dois perfis distintos de estímulos para empreender se destacam: por necessidade e por oportunidade.

O empreendedorismo por necessidade surge principalmente da busca por uma alternativa para geração de renda, geralmente porque a situação em que a pessoa se encontra a leva para esse caminho, como a perda do emprego, por exemplo. A dificuldade de recolocação no mercado de trabalho e a necessidade de aumentar a renda familiar faz com que muitos vejam no empreendedorismo uma saída para contornar as dificuldades financeiras. Sendo assim, decidem investir abrindo seu próprio negócio.

Já os empreendedores por oportunidade surgem da identificação de uma grande possibilidade de mercado. Muitas vezes são trabalhadores que contam com alguma ocupação formal de emprego, mas que decidem empreender por conta das oportunidades que vislumbram e pela chance de oferecer algo diferenciado, a fim de aumentar sua renda e também pelo desejo de independência profissional. Normalmente essas pessoas possuem boa capacitação e bom nível de escolaridade.

Crise e o empreendedorismo

De acordo com dados da pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM) sobre empreendedorismo, em 2015 a taxa de empreendedores bateu recordes no Brasil, alcançando o índice de 39,3%, sendo a mais alta dos últimos 14 anos, além de estar entre as maiores do mundo.

Esses números surgem como reflexo da recessão econômica e da alta taxa de desemprego, que acabam movendo a população pela necessidade de conseguir renda de maneira rápida e não necessariamente por terem encontrado boas oportunidades de negócios. Entre os empreendedores por necessidade a predominância ainda é de pessoas com menor nível de educação formal.

Empreendedorismo em números

Apesar da desaceleração econômica que levou ao crescimento no número de empreendedores no Brasil, a pesquisa GEM 2016 mostra que a porcentagem dos que empreenderam por oportunidade (57,4%) ainda é maior do que a dos motivados por necessidade (42,4%).

Mas dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas – Sebrae, referentes a um estudo que contempla negócios registrados e empreendedores informais, comprovam um crescimento do empreendedorismo por necessidade nos últimos anos. A porcentagem que era de 29% em 2014, subiu para quase 43% em 2015, perspectiva que se manteve no ano seguinte.

Dos 48,2 milhões de empreendedores no país em 2016, cerca de 26,2 milhões tinham aberto a empresa há menos de três anos e meio, sendo que 11,1 milhões dizem ter iniciado as atividades por necessidade. A taxa de empreendedorismo chegou a 36% nesse ano, sendo o segundo maior crescimento registrado desde 2002.

Um levantamento sobre o nascimento de empresas divulgado pelo Indicador Serasa Experian também mostra a relação do empreendedorismo e criação de empresas em contrapartida ao desemprego e instabilidade econômica no país. Segundo os dados,  o número de novas empresas teve um aumento de 12,6% no primeiro trimestre de 2017 em comparação a 2016, somando um total de mais de 581 mil empresas abertas, o maior registro desde 2010.

De acordo com dados da pesquisa GEM 2016 de Empreendedorismo no Brasil, os negócios ligados à gastronomia (restaurantes, lancherias, ambulantes, bares, padarias e assemelhados) somam 25% do total de empresas iniciantes, sendo que dos empreendedores por necessidade, mais de 50% fazem parte do time que investe em serviços de alimentação.

Outro setor que ganhou representatividade com o crescimento do desemprego foi o de Microempreendedores Individuais (MEIs). Segundo o Serasa, das mais de 955 mil empresas abertas nos primeiros cinco meses do ano, 79,2% eram MEIs, sendo que em 2013 o número girava em torno dos 42%. Uma das razões pode estar no desenvolvimento de atividades que exigem baixo investimento inicial, focando mais na mão de obra do empreendedor.

Pesquisa do Sebrae referente ao perfil do MEI, realizada em 2017, mostra que mais de dois em cada cinco entrevistados fizeram da residência o seu local de trabalho e em torno de 15% o fazem na casa ou empresa do cliente. Além disso, um em cada três entrevistados (33%) afirmou ter iniciado o empreendimento por necessidade, por precisar de uma fonte de renda, enquanto os que não conseguiram um emprego com bom salário ou na área em que queriam trabalhar somou 10%. A busca por independência foi citada como a razão principal por 36% dos entrevistados. Antes de se registrarem como MEI, 50% tinham emprego com carteira assinada.

Perfil do empreendedor

Apesar das pesquisas mostrarem menor nível de escolaridade entre os que empreendem por necessidade, essa não é uma regra e nem sinônimo de currículo pouco atrativo, como se classificava tempos atrás. A crise econômica e o desemprego trouxeram à tona profissionais qualificados e com bom histórico de estabilidade nos empregos anteriores, mas que não conseguiram se recolocar no mercado de trabalho na mesma área desejada ou com o salário almejado.

Profissionais liberais, como os que atuam na área de saúde, comunicação, beleza e estética, advogados, entre outros, muitas vezes já haviam sonhado com a possibilidade de abrirem uma empresa, mas se encontravam na chamada zona de conforto, com estabilidade no emprego. Com as demissões e a crise, eles abraçam a oportunidade e criam coragem de investir.

No entanto, é preciso estar atento à falsa ilusão de que o empreendedorismo é uma solução fácil e cômoda à falta de emprego. Muitas o abraçam como uma causa temporária. Uma coisa é certa: se o negócio não for bem planejado, fatidicamente será mesmo temporário. Não apenas porque a pessoa continua a busca por um emprego formal, mas por despreparo que leva à falta de chances de sobrevivência no mercado. Lembra do plano de negócios? Ele é mesmo primordial para todos que desejam abrir uma empresa.

Competências


Mais do que o conhecimento prévio de mercado e da área de atuação, é preciso preparo para tudo o que envolve a gestão do próprio negócio. E essa é a principal característica que distingue o empreendedor por necessidade e por oportunidade. Quem geralmente identifica espaço para empreender já fez estudos e tem um conhecimento prévio, ainda que mais superficial, sobre o mercado, antes de abrir a empresa.

Na maior parte das vezes, quem mergulha nesse universo por necessidade não está preparado para os desafios, isso sem contar os que resolvem ingressar numa área completamente diferente da que atuavam. Mesmo sendo uma atividade com a qual tenha identificação ou que se dê bem como hobby, quando se trata de mercado profissional, a situação é bem diferente.

É preciso transformar a necessidade em oportunidade e ir atrás de capacitação. Muitos aprendizados se dão no dia a dia, mas não dá para esperar as dificuldades aparecerem, ou os empreendedores poderão ser derrubados pelo mercado. O ideal é maximizar as chances de sucesso do negócio embasado em preparação, e para isso os empreendedores contam com diversos serviços de apoio, a exemplo dos oferecidos por instituições como o Sebrae.

Semelhanças


Gerenciar uma empresa é um desafio comum tanto a quem empreende por oportunidade quanto por necessidade. Empreendedores de sucesso costumam desenvolver e aprimorar habilidades específicas.

É preciso planejar, ter visão do todo da empresa, identificar pontos fortes e fracos, conhecer os clientes e concorrentes, investir em inovação, aprimorar a gestão financeira, ter capacidade de liderança, ser competitivo, oferecer soluções criativas, dar suporte para os clientes, saber negociar com fornecedores, e ter muito, mas muito conhecimento do negócio e de mercado.

Acima de tudo, é preciso perseverança, comprometimento, foco, dedicação e disponibilidade para aprender. Sem esses atributos, qualquer empresa estará fadada ao fechamento. Todo empreendedor corre riscos, mas prospera aquele que calcula os riscos e que tem ousadia, com alicerce no conhecimento e preparo. Não se pode negligenciar a importância dos pequenos negócios – frente à crise ou não. Sem dúvida eles são um fator considerável na retomada da economia e geração de empregos. Mas, para isso, é preciso mais do que suprir uma necessidade, é preciso saber aproveitar as oportunidades.

Clube Sebrae
Sandra Trujillo Costa
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Gestora de Projetos - Sebrae Paraná

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