[ editar artigo]

Os novos comportamentos de consumo que estão gerando oportunidades de negócio

Os novos comportamentos de consumo que estão gerando oportunidades de negócio

A busca pelo bem-estar e a qualidade de vida indica o surgimento de novos tipos de comportamentos. Negócios que estiverem atentos a estas mudanças poderão inovar em seus segmentos.

Na era da internet e da conectividade, as exigências do consumidor consciente são uma realidade cada vez maior. Como mencionado no post anterior, que tratava sobre a macrotendência Sociedade e Economia Inteligentes, o consumidor da atualidade passou a questionar seus valores, prioridades e decisões de compra, e já opta por um consumo que reduz os danos a ele, aos outros e ao mundo. Na macrotendência que apresentamos neste post, iremos tratar justamente destas modernas concepções que têm se estabelecido nas relações de compra e lazer: os novos comportamentos de consumo.

Se por um lado vivemos a aceleração tecnológica e temos exigido “tudo para ontem", por outro já há quem precise balancear esse estilo de vida eufórico. O Brasil, por exemplo, tem a maior taxa de transtorno de ansiedade do mundo segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o que tem levado cada vez mais pessoas a procurar por atividades relaxantes e lugares onde se sintam acolhidas. Breves distanciamentos das redes sociais e de quaisquer dispositivos conectados também têm sido frequentes nos novos hábitos do consumidor, que às vezes sente necessidade de fugir da selva tecnológica do mundo contemporâneo.

           

Ao mesmo tempo, por mais contraditório que possa soar, esta fuga pode ser encontrada através da tecnologia. Parece história de ficção científica, mas já estamos vivendo alguns daqueles cenários que foram previstos em filmes futuristas do passado. No Paraná, por exemplo, poderemos em breve usufruir dos serviços da VOID, uma empresa voltada para o setor de bem-estar que propõe a experiência de flutuação. Esta prática se dá a partir de uma banheira com aproximadamente mil litros de água e 600Kg de sal de epsom, uma composição que aumenta a densidade da água e faz com que o corpo flutue sem esforço algum. Segundo Luccas Baptista, um dos fundadores da empresa, a densidade é tão alta que chega a ser maior que a do Mar Morto.

O objetivo da flutuação é proporcionar às pessoas uma efetiva redução dos estímulos sensoriais – visuais, auditivos, olfativos e táteis (incluindo a percepção de temperatura corporal) – além da redução da gravidade. Os maiores benefícios comprovados à prática de flutuação são diminuição da pressão arterial, frequência cardíaca, tensão muscular, dor nas costas e dores musculares, além do auxílio na administração de quadros de estresse, jet lag, insônia e ansiedade.

Fundada por Luccas e mais dois amigos, Ramon Sarchi e Cauã Cobuci, a VOID teve sua criação motivada pela constante busca de Luccas por qualidade de vida. No ano de 2010, ao descobrir sobre a prática da flutuação, o empresário apaixonou-se pelo conceito. Assim, decidiu envolver-se no ramo para popularizar a prática no Brasil, que ainda é muito pequena se comparada a países do hemisfério norte. A empresa tem data de lançamento prevista para o quarto trimestre de 2018 na capital paranaense, Curitiba.

Nas sessões, o cliente poderá entrar no tanque, fechar a tampa, deitar na água e flutuar completamente. Nos primeiros dez minutos, uma música relaxante é tocada para que haja uma imersão inicial. Após esse período, o cliente será instruído a desligar a luz para uma experiência de isolamento sensorial. De qualquer maneira ele terá pleno controle sobre cada etapa da sessão; caso não se sinta confortável com o tanque fechado e escuro, poderá deixar a tampa aberta e regular a intensidade da luz. Por fim, nos últimos cinco minutos, uma música suave tocará novamente para comunicar que a imersão está chegando ao fim, induzindo a pessoa a despertar calma e lentamente. Cada sessão poderá durar entre uma hora a uma hora e meia.

Além de serviços voltados para bem-estar e relaxamento, há outras maneiras da tecnologia reduzir etapas estressantes na rotina diária do consumidor. É o caso do Moinhos Shopping (de Porto Alegre) e do Supernosso Supermercados (de Minas Gerais), que utilizaram beacons para facilitar informações de compra aos clientes. Os beacons são dispositivos instalados dentro dos estabelecimentos comerciais que, ao detectarem smartphones que possuem o aplicativo do estabelecimento, enviam informações para o consumidor a partir da sua localização dentro da própria loja. O Moinhos Shopping – um dos pioneiros desta tecnologia no Brasil – espalhou diversos beacons pelos seus corredores durante a Black Friday de 2014. Assim, os clientes puderam receber informações sobre promoções das lojas, agenda cultural, cinema, banheiros etc. Já o Supernosso Supermercados, em parceria com a empresa de programa de fidelidade Dotz, instalou 15 beacons no teto de uma de suas lojas em Belo Horizonte. O projeto visava oferecer informação em tempo real aos consumidores, que ao passarem pela frente da prateleira de 15 produtos de alta demanda, recebiam um aviso em seus aplicativos comunicando o número de pontos que poderiam acumular ao adquirir cada produto.

Outro exemplo de empresa que dispõem a tecnologia a favor da sociedade é a Thoughtworks. Esta comunidade online une desenvolvedores de todo o mundo para oferecer soluções e produtos em softwares open source para empresas, e colabora com missões humanitárias ajudando-as a gerar impacto positivo por meio da tecnologia. Ela também publica insights em seu blog semanalmente, escreve livros e organiza eventos para troca de conhecimento.

No âmbito de transformação social e de mudanças no mindset de consumo, Ariane Regina dos Santos apresenta a sua marca Badu Design. Denominado de negócio social, seu principal propósito é reconectar as pessoas por meio do design e do trabalho manual. Na Badu, a matéria-prima utilizada provém de resíduos têxteis da indústria, que possibilitam a produção de materiais de decoração, bolsas, acessórios, papelaria e brindes sustentáveis. Ariane relata que quando iniciou o projeto, contava com trinta reais para investimento. Ainda assim, percebeu que poderia auxiliar e reunir outras mulheres para empreender em rede. Oportunidades surgiram após participar do Projeto Sou Curitiba Souvenirs do Sebrae , quando a empresária teve a chance de conhecer e trabalhar com mais mulheres.

O objetivo da Badu é oferecer uma oportunidade de trabalho às mulheres que não podem trabalhar fora de casa, seja por terem de cuidar de alguém ou por optaram por ficar mais próximas dos filhos. A equipe, que começou com três mulheres, hoje conta com mais de 327 que já receberam capacitação e estão engajadas no processo produtivo da Badu. Com empatia, Ariane fala da importância em reconhecer os talentos de cada mulher que participa da rede para conectar as pessoas, ajudá-las a empreender, expandir suas possibilidades de renda e melhorar a qualidade de vida de cada uma.

A Badu atualmente também oferece serviço de upcycle para peças fora de catálogo, transformando-as em novas coleções. A empresa paranaense atua em rede com diversos parceiros institucionais com o propósito de mudar a visão de consumo, a partir da proposta de valor que entrega.

Tratando ainda de consumo consciente, a Extraordinários Luxo Natural é uma marca inovadora de biocosméticos e alimentos que oferece produtos e serviços com o intuito de nutrir a totalidade do indivíduo e harmonizar sua relação com a natureza e a vida. O negócio foi criado pela empreendedora Soon Hee Han, e atende um nicho de consumidores exigentes que busca um estilo de vida consciente sem abrir mão do paladar, do auto-cuidado e da sofisticação. Os ingredientes são 100% naturais, livres de parabenos e sulfatos, sem aditivos químicos sintéticos e sem crueldade animal.

           

Soon Hee diz que a marca se originou a partir do conceito de Ecossistema do Ser que aborda a tríade "espírito-mente-corpo", um ecossistema humano dinâmico e interdependente que deve ser simultaneamente nutrido para que a pessoa alcance sua melhor expressão de saúde e beleza. O conceito foi desenvolvido por ela mesma em seu processo de cura, após uma experiência pessoal com o estresse e o câncer.

No estado do Paraná, seus produtos se destacam por serem inovadores no conjunto de valores que oferecem: terapêutico, premium, gourmet, natural, livre de químicos sintéticos, entre outros. A ideia é trazer a multifuncionalidade aos biocosméticos e alimentos sem que percam sua eficácia. A Extraordinários ainda oferece cursos e oficinas em ciências orientais, holísticas e de aprimoramento pessoal.

Explorar debates coletivos a partir de negócios que propõem ações para uma sociedade mais humana e justa tem sido uma tendência crescente. Além de mais comprometidas com questões sociais e sustentáveis, as pessoas estão buscando constantemente por aprendizagem, de modo que possam se auto desenvolver. Lugares como o Coletivo Alimentar e o Banco de Tecidos demonstraram ter enxergado estes anseios do consumidor ao reservarem espaços em suas agendas para organizar encontros e conversas com o público. O Coletivo Alimentar (que já foi citado aqui pelo clube SEBRAE na macrotendência Economia Sustentável, do ano passado) é um Living Lab curitibano — uma espécie de laboratório experimental — onde, além de prototipar diversos serviços e produtos do setor alimentício, realiza frequentemente palestras e workshops com temáticas variadas. O Banco de Tecidos, por sua vez, é um depósito de tecidos para reaproveitamentos futuros, que oferece soluções criativas para as empresas que buscam se adequar à Política Nacional Brasileira de Resíduos Sólidos. No entanto, a empresa não só atua como um sistema inclusivo e circular na área têxtil, como também se denomina um espaço de encontros e troca de conhecimento.

Outro grande interesse do “novo” consumidor é poder ser mais ativo e participativo no processo de criação dos produtos que adquire. Isso pode acontecer a partir da sua capacitação para personalizar e estilizar seus próprios produtos, ou oferecendo-lhe a oportunidade de cocriar com a loja. Na Quirky, uma plataforma online colaborativa, é possível ser " um mero mortal" E um “inventor”. A empresa nova iorquina tem o intuito de incentivar o compartilhamento de boas ideias, viabilizando a criação, produção e comercialização de produtos desenvolvidos por pessoas comuns. Basta que elas inscrevam seus projetos no site para submeter suas invenções a voto popular. A comunidade do Quirky escolhe semanalmente até dois produtos para serem desenvolvidos e os demais usuários ainda podem contribuir para aprimorar o projeto inicial. As ideias melhor avaliadas são produzidas e entram em pré-venda até que um número determinado de pessoas se comprometa a comprar o produto caso ele seja produzido. Ao final, todo o lucro das vendas é dividido entre o produtor, a comunidade (no caso, quem colaborou com ideias) e o próprio usuário-inventor. Ou seja, além de valorizar as ideias de seus consumidores e capacitá-los para serem criadores, a Quirky ainda demonstra responsabilidade e seriedade com todos os envolvidos no processo, fazendo com que seus usuários se sintam mais confiantes para participar da plataforma.

E não se pode falar de capacitação sem mencionar empoderamento. O termo, que tem conquistado cada vez mais espaço, refere-se a um tipo de capacitação a partir da conscientização de indivíduos, transformando, por consequência, seus coletivos. O desejo de compreender origens, lugares e papéis na sociedade, tem gerado no consumidor uma busca por este tipo de informação e pelo contato com pares. É o que acontece em Curitiba no Espaço BDNT: o negócio se iniciou como aulas de dança que mesclam psicologia a exercícios corporais e de relaxamento, com o objetivo de trabalhar vínculos emocionais e empoderar as mulheres participantes. Porém, devido à alta procura e ao engajamento da comunidade, tornou-se em 2018 um espaço físico que atualmente também oferece aulas de inglês, encontros de aprendizado sobre ciclos menstruais, oficinas de teatro, clube de leitura e escrita, e diversos eventos mensais (todas atividades apenas para mulheres).

Em todos os empreendimentos citados neste artigo, é possível notar a conexão com o público, seja através dos ideais que originaram os negócios ou de um posterior reconhecimento e adaptação ao público consumidor. Na era da informação digital — e com a demanda por representação justa de todos os indivíduos — deve-se tomar cuidado com segmentação demográfica baseada em fatores como idade, sexo, status econômico, sexualidade ou raça. As diferenças entre as pessoas são, na verdade, muito mais tênues e sensíveis. Atualmente é imprescindível que os negócios saibam aproximar-se do consumidor de forma genuína e empática, com sensibilidade para perceber mudanças de comportamento constantes.

Como a sua empresa está se relacionando com os novos comportamentos de consumo?

Quer saber como aplicar estas inovações em seu negócio? Baixe aqui nosso Caderno de Tendências 2018/2019 e ferramenta exclusiva para gestão de tendências.

Clube Sebrae
Mauricio Reck
Mauricio Reck Seguir

CEO - UNA Smart

Ler matéria completa
Indicados para você