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QUANDO A REALIDADE DEPENDE (OU NÃO) DA TECNOLOGIA

QUANDO A REALIDADE DEPENDE (OU NÃO)
DA TECNOLOGIA

No campo das experiências, um novo mundo se abre à medida em que a sociedade avança tecnologicamente. No entanto, mais do que nunca, os desejos e necessidades nascem de um cotidiano real e demasiado humano.

Sabemos que a busca pela experiência tem se tornado uma demanda cada vez maior no mercado. No ano passado o Sebrae publicou um artigo sobre uma macrotendência semelhante, chamada Experiências Únicas. Este ano, porém, o desejo por experiências evoluiu e mesclou-se a outros tópicos da atualidade. Agora o consumidor encontra-se mais exigente e desconfiado, demandando responsabilidade social acima de tudo. Coerência entre ações e discurso se tornou essencial para que uma marca obtenha a confiança do público e o mantenha interessado nela.

Há ainda uma grande necessidade de conexão, nos mais diversos e opostos sentidos possíveis. No campo digital, por exemplo, estar conectado a este mundo invisível é parte cada vez mais inerente do cotidiano. Se pensarmos no sentido social, há uma grande sensação coletiva de escassez nas conexões humanas; e resgatá-las é um desejo crescente. Neste contexto, utilizar a artificialidade dos recursos tecnológicos atuais – e somar estas experiências à realidade das interações humanas — torna-se o que chamamos de uma busca por Experiências Reais. Nesta macrotendência, ignorar a modernização não é uma opção; mas resgatar as sensações de pertencimento, cuidado e acolhimento que só as relações sociais podem nos trazer é o que fará a diferença.

            Isto é exatamente o que acontece com a Laura, um dos primeiros robôs cognitivos do mundo focado em gerenciamento de risco. A plataforma de inteligência artificial nasceu há poucos anos em Curitiba; e foi criada pelo arquiteto de sistemas Jacson Fressatto que, após perder sua filha primogênita para a sepse grave (uma doença infecciosa que atinge milhares de brasileiros todos os anos), mergulhou em uma árdua jornada buscando entender o que poderia ter enganado os profissionais que atenderam Laura, sua filha. Foi então que Jacson compreendeu que não havia culpados, mas um excesso de informações, natural do ambiente hospitalar, somado a uma falta de processos regulados e de auditoria para os mesmos — algo muito relacionado ao que Jacson sabia fazer.

Após alguns anos estudando as complexas performances da sepse e buscando viabilizar uma técnica capaz de cruzar todas estas informações, finalmente foi possível criar a plataforma que, segundo o CEO, atende a uma das maiores necessidades da área da saúde: tecnologia eficiente, acessível e de ponta. "Não adianta nada a gente ficar se comparando aos outros países ou criar coisas monstruosas que na verdade são inacessíveis. Temos que criar um balizador médio de acesso à tecnologia. A proposta do projeto Laura é justamente esta", afirma Jacson.


Implementado em hospitais, o robô é capaz de analisar os quadros de saúde de um paciente e enviá-los em tempo real à equipe de especialistas, que poderão otimizar o seu tempo de diagnóstico e decidir mais rápida e precisamente quais próximos passos devem tomar. A tecnologia aplicada possui ainda os desdobramentos Laura for Sales e Laura for Service, voltados para a indústria automobilística e de serviços gerais respectivamente. Nestes casos, a plataforma ajuda o varejo a captar o melhor momento do cliente e evitar rupturas de relacionamento, ou a identificar processos que precisem de atenção para que os players adequados os executem, reduzindo os danos na cadeia produtiva.

Jacson conta que a maior motivação para a criação de Laura foi — e ainda é — salvar vidas. Isto é o que move a equipe da empresa todos os dias, especialmente no atual momento de expansão do negócio onde as rotinas estão se tornando mais pesadas e estressantes. "Todos se sentem heróis ao final do dia", afirma. Por outro lado, o empresário também reconhece que criar os desdobramentos que vão para além da área de saúde foi o que viabilizou a rentabilidade do projeto Laura; pois o mercado costuma crer que investimentos em saúde geram muito baixo retorno.

Com esta tecnologia que nasceu de um propósito bastante humanizado, Jacson e Laura mostram juntos ao mundo outras perspectivas sobre os negócios voltados à área de necessidade básica humana: "O projeto Laura traz como benefício para a sociedade um olhar diferenciado para pessoas capazes de gerar negócios, possibilitando-as criar negócios de sustentabilidade social. Por exemplo, não ganhamos dinheiro com a área de saúde, mas a área de saúde está mostrando para o mundo todo o quão eficiente é o nosso produto, a ponto de outros segmentos o quererem para atender às suas necessidades". E esta exposição positiva já se inicia com a relação entre Laura e os próprios clientes, conforme complementa Jacson: "Tem hospital que trata a Laura como uma colega de trabalho. Ela é tão emocionalmente presente, que às vezes as enfermeiras a tratam como uma pessoa mesmo, física, que está em alguma dessas linhas ajudando-os a olhar para aquilo tudo".

No Paraná, a Hi Technologies é outra empresa que tem se destacado por investir em tecnologias voltadas à saúde. O Hi Lab, carro-chefe do negócio, é um produto que surgiu para agilizar a realização de alguns exames e diagnósticos. O funcionamento consiste nestas etapas: o aparelho recebe a gota de sangue, submete a amostra a reagentes, envia os dados para uma nuvem computacional que os processa e devolve o resultado pouco tempo depois. A companhia explora o potencial da Internet das Coisas em produtos e serviços voltados para a área e, embora o Hi Lab não seja seu único produto, ainda pretende desenvolver diversos outros. Em julho deste ano, a Hi Technologies chegou a ser selecionada para integrar o TechEmerge Health, programa do International Finance Corporation (IFC), do Banco Mundial, que estimula a internacionalização de empreendedores que investem em projetos de inovação para a saúde.

A Internet das Coisas tem sido um recurso bastante explorado na macrotendência das Experiências Reais. É o caso do Echo, um alto-falante sem fio comandado por voz, que responde ao nome de Alexa. A Alexa (nome que pode ser alterado pelo usuário, se preferir) tem "personalidade própria" e é capaz de mais do que obedecer aos comandos, mas literalmente respondê-los. Entre suas capacidades, estão: reproduzir músicas; fazer listas de tarefas; definir alarmes; ler audiobooks; fornecer informações sobre o tempo ou tráfego; e diversas outras. Desenvolvido pela Amazon em 2014, o Echo também pode se conectar e controlar vários outros objetos inteligentes. No Brasil, porém, a Alexa parece ainda um sonho um tanto distante, visto que até hoje não possui versões em português.

Numa versão muito mais simplificada, podemos também comparar a criação de inteligências artificiais como a Laura e a Alexa aos chatbots, criados por empresas como a LeYa e o iFood. A editora de livros implementou em sua página do facebook um chatbot que recomenda citações de livros como sugestões de legendas para fotos, onde o usuário descreve brevemente a foto que pretende publicar nas redes sociais e o bot sugere citações que possam ter relação com a cena ou o sentimento vivenciado na foto. Já o aplicativo de comidas delivery está testando a implementação do iFood Guru, um bot que sugere ao usuário os restaurantes mais próximos de acordo com a localização e o prato que gostaria de comer, fazendo o pedido por ele. Na fase beta, o bot até o momento pede apenas pizza, mas a pretensão é que no futuro possa pedir uma gama muito maior de opções de pratos.

Outra tendência tecnológica que tem emergido com força no mercado é a de realidade virtual. A Eruga, por exemplo, é uma empresa brasileira que combina Realidade virtual com jogos para melhorar o aprendizado e a motivação em treinamentos. No ramo dos imóveis, a Cyrela desenvolveu soluções a partir de realidade virtual para feiras imobiliárias, nas quais seus clientes podem experienciar apartamentos e visualizar plantas em tamanho real.

Embora a tecnologia esteja sendo uma grande aliada para oferecer tantas novas formas de experiências do público, nem sempre ela é fator imprescindível para a inovação. Na verdade, diferentes olhares para lugares mundanos ou eventos triviais às vezes é o suficiente. Foi o que a Arquea Arquitetos fez em Curitiba no ano passado: juntamente com alunos de arquitetura, o escritório realizou intervenções pela cidade para a exposição Arquitetura para Curitiba 2017, que brincavam com narrativas locais e exploravam lugares cotidianos banais. Entre as intervenções, havia bóias de jacarés pelo Parque Barigui (referindo-se ao mito da existência do animal pela região), uma máquina de bolhas de sabão em um semáforo de pedestres da Rua XV de Novembro, um ponto de ônibus coberto de plástico bolha e uma cabeça com máscara de mergulhador dentro do bebedouro do Largo da Ordem. Apesar da duração curta de um só dia, as intervenções resultaram em diversas interações com as pessoas que estavam de passagem pelos locais, gerando reações divertidas e registros fotográficos, que geraram bastante mídia espontânea para a empresa.

Apropriar-se de espaços “invisíveis” e transformá-los, aliás, sempre pode ser uma boa pedida, especialmente quando pretende-se explorar interações coletivas. Há, contudo, alguns recursos especiais que podem torná-las as cerejas de bolo do ramo experiencial: o discreto, o transitório e, principalmente, o efêmero. Quem representa bem todos estes conceitos é o Sofar Sounds, um evento musical que acontece em diversas cidades do mundo, inclusive em Curitiba. A proposta é utilizar ambientes banais (como salas de estar ou lojas de varejo), transformando-os em locais para shows secretos, onde cria-se assim uma experiência imersiva que aproxima plateia e artistas. Cada edição é pequena e normalmente apresenta três artistas e propostas diferentes. A venda de ingressos é online, mas costuma acontecer através de sorteio, de modo que ao se solicitar um ingresso não há a certeza de que será possível adquiri-lo (até 5 dias antes do show). O endereço também é divulgado apenas algumas horas antes de cada show; e os artistas convidados são apresentados apenas quando o evento se inicia.

Em direção semelhante, a Desmobilia promove anualmente eventos de showroom em formato pop-up, cada vez em uma cidade brasileira diferente. Com edições anteriores em cidades como Porto Alegre, Belo Horizonte e Brasília, a edição de 2016 aconteceu em Curitiba (berço da empresa), na Casa Osten. Localizado na Visconde de Guarapuava, o espaço teve todas as suas características industriais originais mantidas e, com isto, reforçou o aspecto especial da ação no ambiente.

Conectar-se com a história e o passado também tem sido, de algum modo, uma demanda bastante desfrutada pelo público. Em outras áreas, podemos citar o bar temático 8-bits, de Florianópolis, voltado para o público nerd e geek. No ambiente, todas as mesas possuem videogames antigos disponíveis para jogar; e é lá que diversos jovens de diversas gerações reúnem-se frequentemente para passar um tempo juntos. Além do saudosismo tecnológico saciado a todo vapor, as refeições e os drinks são ainda inspirados em personagens do universo geek, causando risadas e afeição pelos pratos.

Voltando às terras paranaenses, um restaurante em Curitiba propõe experiências bastante diferenciadas aos seus clientes: o Bistrozinho. Em tempos como os de hoje, a não utilização de tecnologias e o tempo dedicado às interações sociais e familiares, pode também se tornar algo inovador. Este restaurante nasceu com a proposta de tornar os momentos das refeições uma divertida aventura entre pais e filhos. Lá não há áreas reservadas para as crianças (ao contrário dos usuais "espaços kids"), e tudo é pensado para que toda a família possa desfrutar junta o mesmo espaço.
A proprietária do Bistrozinho, Denise Pereira, que é mãe de 3 filhos, conta que sempre sentiu muita dificuldade para encontrar restaurantes em que pudesse levar seus filhos e passar um tempo com eles. Todos os restaurantes que se propunham a considerar a presença infantil, na verdade apenas disponibilizam um "espaço kids", mantendo as crianças afastadas dos pais: "então a gente acabava não ficando com os filhos, mas se livrando deles”, reflete Denise, que continua: “toda vez que a gente vai fazer uma comemoração, a comida está sempre envolvida. Então a ideia foi fazer um restaurante que os pais pudessem comemorar com os filhos e passar bons momentos ao redor da comida".

Das soluções para o espaço, o ambiente dispõe de mesas altas e mesas baixas. Mas, para muito além disso, Denise considerou que crianças habitualmente possuem muita energia e não conseguem ficar muito tempo paradas em uma mesa. Por isso, recheou o restaurante com recursos atrativos para as crianças, como um quadro negro, diversos livros de leitura, brinquedos, camarim com objetos, etc. — tudo isso sem o cliente precisar marcar reservas ou pagar a mais. "Por exemplo, a criança quando chega no Bistrozinho depara-se com um porta-guardanapos em formato de boneco, e recebe adesivos com olhinhos, roupa, cabelo etc. para montá-lo. Assim ela já tem algo interessante para fazer na mesa", explica Denise.


Também não há cardápio específico para adultos ou crianças — a diferença é apenas pelo tamanho e pela montagem dos pratos. Em todas as comidas, as crianças podem interagir seja pelo formato interessante da comida ou pela oportunidade de desenhar com uma canetinha comestível. É possível ainda pedir brincadeiras, como “o que é o que é” por exemplo. Variando entre as opções "salgado" e "doce", o jogo na verdade consiste em uma tábua servida com 8 panelinhas fechadas onde, de olhos vendados, a criança é instigada a experimentar as amostras de comidas (que normalmente são refeições não usuais às crianças) e desafiada a adivinhar o que é cada uma. Caso acerte, é recompensada com prêmios e afins.

Denise revela que todos os alimentos são comprados por ela mesma no Mercado Municipal de Curitiba, e que faz questão de servir tudo muito fresco e caprichado. A ideia é fazer conceitos como "comida boa feita por um bom restaurante" combinarem com a presença de crianças. "Aqui a gente leva as crianças a sério”, diz a proprietária. O Bistrozinho é uma ideia original de Denise: "sentindo falta de um espaço assim, eu mesma decidi criar".

Ao revermos todos os negócios apresentados neste artigo, podemos notar que não falta espaço no mercado para aqueles que gostam de inovar e fazer a diferença. Compreendendo os novos contextos do público e, em especial, suas atuais necessidades e demandas, é possível criar as mais diversas propostas de experiências que entregam aconchego e, ao mesmo tempo, solucionam problemas cotidianos. Com a motivação e as atitudes certas, as empresas que dedicarem suas forças de trabalho para esta direção provavelmente obterão uma ótima recepção do público, destacando-se no mercado.

Presente em todos os artigos anteriores, aqui percebe-se mais uma vez que a busca por qualidade de vida é um dos maiores interesses coletivos na atualidade. Por isso, e considerando não só esta, mas todas as macrotendências apresentadas pelo SEBRAE este ano.

E a sua empresa, o que tem feito pelo bem-estar da sociedade?

Clube Sebrae
Mauricio Reck
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Consultor de Inovação no Sebrae/PR & CEO na UNA Smart!

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