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Sobre gols e pães

Sobre gols e pães

“O Fulaninho da Silva é diferenciado”. Essa era uma frase comumente ouvida nos campos de várzea de Passa e Fica, cidade onde nasceu. De origem pobre, encontrou no futebol o caminho para uma rápida ascensão social. É bem verdade que tinha um talento nato com a bola nos pés, aquele reservado somente aos grandes craques. Começou no Nacional local, mas logo despertou o interesse de grandes equipes. Optou pelo ‘todo-poderoso’ Independente de Gado Bravo. Lá sua fama cresceu ainda mais, chegando à Seleção Nacional. Sua carreira dentro de campo foi consistente, repleta de títulos. Então chegou a hora de parar e Fulaninho optou por fazer a única coisa que julgava ter competência. Gostaria de permanecer nos gramados, mas agora do lado de fora, utilizando sua experiência como treinador. E a transição foi imediata. Mas as coisas não saíram como Fulaninho imaginava. Não conseguira repetir como treinador o sucesso que obteve enquanto atleta e passou a perambular de clube em clube, sem nunca conseguir se firmar na nova carreira. Não entendia por que isso acontecia e por fim desistiu.

Siclano de Souza era um padeiro hábil. O último de uma linhagem iniciada por seu bisavô na cidade de Juvenilia. A fama dos Souza era tanta, que pessoas se deslocavam desde Paiolinho para comer suas iguarias. Pães feitos com muito zelo, que pareciam ter sido fabricados para ficarem expostos e não consumidos. E assim foi geração por geração, sempre servindo à família Aydin e seu comércio de secos e molhados. Os turcos eram espertos e sabiam o quanto a presença dos Souza significada no faturamento de ‘seu lojinha’. Pagavam a eles mais do que aos demais funcionários — mas não muito — como forma de demonstrar apreço. Mas Siclano já não pensava como seus antepassados. Estava decidido a mudar o seu destino. Nascia a Padaria Tem Pão. Porém, ao contrário do que sonhava Siclano, a sua iniciativa não durou um tempão. Trabalhava mais do que antes, de sol a sol, sete dias por semana, mas não via a cor do dinheiro no fim do mês. Não entendia por que isso acontecia, mas não teve forças — e nem recursos — para continuar.

Fulaninho e Siclano, duas histórias de vida tão distintas, mas com um erro em comum. Falha que muitos empreendedores cometem ao tentar iniciar um negócio: dominam a fundo um ofício, mas desconhecem as variáveis de gestão do mesmo. E suas histórias se repetem todos os dias pelo país, várias e várias vezes, nos mais diversos segmentos de atividade. Fulaninho sabia jogar futebol como poucos, mas não entendia de gestão de pessoas e de ciências biológicas (anatomia, fisiologia e ortopedia), conhecimentos essenciais para o sucesso da sua nova carreira. Não se preparou para a mudança e falhou por este motivo. Já Siclano era excelente na fabricação de pães, mas não dominava os conceitos básicos de administração — como custos, preço de venda, fluxo de caixa, formação de preço, indicadores de resultado, gestão de estoques e marketing –, fundamentais para o sucesso de sua iniciativa. Não se preparou para a mudança e também vacilou neste ponto. Portanto, se você quer empreender, aprenda com histórias como as apresentadas. Busque se capacitar antes de iniciar uma nova jornada. O conhecimento irá direcionar a sua caminhada. Como observamos nas histórias de nossos amigos, esta jornada só terá um final feliz se nos prepararmos antes. Isso é, ao menos que você acredite na sorte. Mas lembrando o que Sêneca já dizia lá na época do Império Romano, a “sorte é o que acontece quando a capacidade encontra-se com a oportunidade”.

Fim!

Henrique Porto é administrador, jornalista, escritor e fã incondicional de esportes. Marido da Iriane, pai da Julia e da Beatriz. Jundiaiense de nascimento e jaraguaense por opção. Atua como analista técnico do SEBRAE/SC.

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Analista Técnico - SEBRAE/SC

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