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MUJI - qualidade e simplicidade como branding

MUJI - qualidade e simplicidade como branding

Convido você a entrar em uma loja em que tudo é simples. Nela, você não vai encontrar objetos supercoloridos e diferentes. Os tons predominantes são: vermelho escuro, cinza, branco, preto e marrom. O design dos produtos e das embalagens não contém nada complexo e desnecessário. É tudo direto e informativo.

Pode parecer que essa loja tem tudo para ser “chata” e tediosa. Especialmente se compararmos com toda a diversão e o colorido proporcionado pelas experiências em lojas como a Flying Tyger, por exemplo.

Mas o êxito dessa loja no Japão e no mundo inteiro é a comprovação de que sucesso não tem a ver com um modelo específico de negócio – o que importa, de verdade, é que a marca seja fiel à sua missão e a seus valores.

Na MUJI, empresa japonesa do grupo Ryohin Keikaku Co. Ltd., a visão que rege a forma como os produtos são fabricados e vendidos é: “A busca constante por produtos de qualidade”.

“A MUJI desenvolve produtos que os clientes possam sentir ‘isso é perfeito para mim’, tanto em termos de preço quanto de qualidade. Nós também procuramos ter uma relação de negócio justa com nossos fornecedores, além de nos preocuparmos com a segurança e a saúde dos fabricantes de nossos produtos ao redor do mundo”, explica Fuminari Kozuka, relações públicas da MUJI em entrevista exclusiva ao Sebrae Trends.

Simples, de qualidade e com bom preço

A primeira loja MUJI abriu no ano de 1980. Na época, o Japão vivia um momento de crescimento no consumo. Por um lado, marcas globais de luxo ganhavam popularidade no país. Por outro, lojas com produtos superbaratos e de baixa qualidade se multiplicavam, dividindo os padrões de consumo entre: o que é bom, é caro; e o que é barato, é ruim.

Foi nesse cenário que a MUJI surgiu com o intuito de mostrar que é possível ter produtos de qualidade, que sejam úteis para os clientes, com um preço justo. A marca criou um novo conceito, o mujirushi ryohin, combinando as duas principais esferas que guiam as operações da empresa: uma marca sem logo – mujirushi – e itens de boa qualidade – ryohin.

Nesse sentido, os produtos da MUJI são desenvolvidos seguindo três prioridades: seleção dos melhores materiais, racionalização dos processos e simplificação das embalagens.

Kozuka detalha que as operações da MUJI estão alinhadas ao conceito japonês chamado “su”, que significa simples, natural, sem muitos adornos. “É a ideia de que a simplicidade nem sempre é algo relacionado à modéstia ou sem valor, mas, sim, de que o simples pode ser mais bonito do que algo luxuoso”, detalha.

A experiência MUJI

Atualmente, a MUJI conta com 888 lojas em todo o mundo – sendo 418 no Japão, 200 só na China e 403 em outras localidades do globo. Ano passado, a empresa teve um faturamento de 300 bilhões de ienes (cerca de 2.7 bilhões dólares).

E se a primeira loja, fundada há 37 anos, vendia por volta de 40 produtos, hoje a marca MUJI vende mais de 7 mil itens, entre móveis, decoração, produtos de limpeza e organização, cosméticos, roupas e acessórios, itens de escritório, materiais de viagens e eletrônicos.

Mas não pense que a variedade de produtos interfere na simplicidade defendida pela marca. Aliás, em um mundo repleto de opções, em que você está exposto à poluição visual até mesmo no mercado da esquina, entrar em uma loja MUJI e ter essa experiência focada no simples é renovador.

A padronização dos produtos, do design e dos ambientes da loja, ao contrário do que se pode imaginar, não proporciona uma experiência tediosa. É como entrar em uma “bolha” relaxante. Quando eu vou à MUJI, sei que não vou ser sobrecarregada com o peso de decidir entre 50 opções de itens com a mesma função, e tenho certeza de que tudo ali é de alta qualidade (e que eu não precisarei pagar um preço exorbitante).

O segredo para proporcionar essa simplicidade também na hora de fazer as compras está nos pilares que regem as operações de vendas nas lojas MUJI no mundo todo: bons produtos, bons ambientes e boas informações.

“Nós acreditamos que a melhor maneira de os consumidores entenderem nossa visão de uma vida simples, agradável e prática é vendo nossos produtos e visitando nossas lojas”, salienta Kozuka.

Pensando globalmente, agindo localmente

A MUJI desenvolve ações estratégicas para garantir que o conceito defendido pela marca seja facilmente traduzido e percebido em diferentes contextos e culturas.

Em primeiro lugar, a marca cria produtos que sejam úteis em qualquer lugar do mundo.  

Além disso, sempre que uma nova loja é aberta em um país ou região diferente, a empresa organiza um evento aberto à comunidade chamado “O que é MUJI?”, em que a empresa é apresentada e profissionais que trabalham nela explicam o conceito dos produtos e os valores da marca.

E ainda, as lojas MUJI procuram estar sempre envolvidas em eventos e workshops em parceria com criadores regionais, para participar das atividades locais e fazer a empresa se tornar membro da comunidade.

Outra ação que a marca realiza para espalhar e fortalecer seus valores são os encontros entre executivos e profissionais das lojas MUJI em que se discute o passado, o presente e o futuro da organização.  

Físico X digital

Em um mundo hiperconectado, em que o consumidor tem acesso a um oceano de opções disponíveis em apenas alguns cliques na web, pensar em como verdadeiramente se conectar com o público por meio do compartilhamento de valores (e não estamos falando só do valor monetário) deve ser um desafio constante para as empresas do presente e do futuro.

Nesse sentido, indo contra a maré que defende as plataformas digitais como o centro das operações de vendas na atualidade, a MUJI foca no relacionamento offline. Kozuka explica que a forma como a marca espera que os consumidores se relacionem com ela e entendam seus valores é justamente por meio da experiência dentro das lojas físicas.

“As lojas online serão mantidas como uma opção para aqueles que preferem comprar por esse canal. No entanto, não vemos como o único caminho, mas sim como uma das ferramentas para guiar nossos clientes para as lojas offline”, destaca.

Tendências globais

O jeito da MUJI fazer negócios e se relacionar com seu público pode parecer diferente de tudo. Mas apesar de a marca possuir conceitos e valores únicos, eles conversam com as principais tendências de mercado da atualidade.

O SEBRAE realizou uma análise profunda para identificar as grandes movimentações do mercado. O resultado foi o Caderno de Tendências, em que são exploradas as quatro macrotendências que devem reger os negócios em um futuro próximo.

Entre as tendências apontadas no relatório, as que mais se encaixam com o trabalho realizado pela MUJI são as seguintes: Economia Sustentável e Escassez do Tempo.

A Economia Sustentável tem a ver com a forma mais consciente de produzir e vender produtos, defendendo um consumo mais ético e justo, focando na eficiência dos recursos. A MUJI aplica isso em toda a sua operação: com a escolha dos melhores materiais, o relacionamento próximo com os fornecedores e a preocupação em garantir uma produção justa e segura. Além disso, todo o conceito da marca vai contra ao consumo em excesso.

Já a tendência da Escassez do Tempo mostra que, cada vez mais, as pessoas deverão buscar maneiras de otimizar o tempo, e isso deve se refletir diretamente na forma de consumir. Nesse sentido, as empresas deverão criar cada vez mais serviços dinâmicos, que facilitem o processo de escolha e compra. A MUJI já realiza isso pela forma simplificada de oferecer seus produtos e serviços.

Se ficou curioso para saber mais sobre essas e outras tendências, clique aqui e baixe gratuitamente o Caderno de Tendências Sebrae.

O que aprender com a MUJI

O trabalho realizado pela MUJI pode parecer algo muito distante da realidade de pequenos e médios empresários no Brasil. No entanto, o segredo para o sucesso da empresa japonesa vale para empreendimentos de qualquer segmento e tamanho: a marca tem um propósito forte por trás de suas ações e defende seus valores e conceitos em toda as fases da operação – desde a concepção do design, a fabricação dos produtos até a forma de vender e se relacionar com os consumidores e as comunidades em que atua.

A MUJI é a prova de que inovação não tem nada a ver com ideias mirabolantes. O conceito simples e minimalista é justamente o que faz a marca se destacar no mercado. Mas não porque ela decidiu ser simples só para ser diferente de todo mundo, mas, sim, porque a simplicidade tem um motivo forte para acontecer.

Então, encontrar o seu propósito e definir os valores e o conceito que a sua marca defende vai fazer o seu negócio se destacar dos concorrentes. Seja por ser minimalista, como a MUJI, ou por ser divertida, como a Flying Tiger.  

Agora, pare e pense:

 - O que faz o seu negócio ser diferente?

 - Quais são os valores defendidos por sua marca?

 - Esses valores estão sendo bem comunicados?

 - As ações do seu negócio estão alinhadas ao seu propósito?

Responder essas questões e criar estratégias em torno delas vai ajudar sua marca ser tão forte quanto a MUJI.

 

Imagens: Divulgação

Clube Sebrae
Francine Pereira
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Jornalista baseada em Tóquio (Japão) e caçadora de tendências do Sebrae Trends.

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